Leila Pereira, Lamacchia e a Pizza: Palmeiras revive uma velha história pelo avesso
- 06/10/2026
Há uma curiosa repetição histórica na política do Palmeiras, embora vivida em prismas diferentes. Nos anos 60, o clube viveu uma crise que colocou situação e oposição em lados opostos durante horas. A discussão foi pesada, mas terminou de maneira quase cinematográfica: os dois grupos foram comer pizza juntos e acabaram rindo na mesma mesa. Foi desse episódio que nasceu a expressão “acabou em pizza”.
Décadas depois, a história ganhou uma espécie de avesso. Em uma pizzaria, Leila Pereira reuniu conselheiros e fez um discurso duro contra aqueles que questionam a relação da família Lamacchia e o episódio envolvendo o Vasco. Desta vez, a pizza não encerrou a divergência. Deu-lhe mais combustível. A matéria do Nosso Palestra, que teve acesso ao áudio do discurso, mostra uma presidente disposta a responder aos críticos com a mesma intensidade com que vem defendendo sua gestão.
Uma parte do argumento de Leila que merece ser reconhecida. Ela tem razão quando lembra tudo aquilo que fez pela SEP ao lado de José Roberto Lamacchia. Os investimentos realizados, a sustentação financeira e a transformação da estrutura do clube não podem ser apagados porque surgiu uma nova discussão envolvendo o Vasco. Seria conveniente demais para os críticos transformar uma questão atual em sentença sobre toda uma trajetória.
O problema está em outro lugar. Quando Leila chama de “imbecis” aqueles que levantam questionamentos, ela deixa de responder à pergunta e passa a atacar quem pergunta. E são coisas diferentes. A presidente pode considerar injusta, oportunista ou mal-intencionada determinada cobrança. O que não pode fazer é tratar toda dúvida como se fosse uma ofensa.
Leila está certa em defender sua gestão, mas a polêmica é pertinente
Porque a dúvida, neste caso, não surgiu do nada. A família Lamacchia está envolvida nas negociações relacionadas ao Vasco, enquanto empresas ligadas ao grupo aparecem no contexto da operação. Isso é suficiente para justificar questionamentos sobre eventual conflito de interesses. Não significa que exista conflito comprovado. Significa apenas que há uma circunstância objetiva que merece explicação.

Desta forma, acredito que o discurso de Leila perdeu uma oportunidade. Ela não precisa abrir mão dos méritos de sua gestão para aceitar que mérito não elimina questionamentos. Uma coisa, aliás, deveria fortalecer a outra. Quanto maior a responsabilidade de quem administra, maior deveria ser sua disposição para responder às perguntas difíceis.
Leila tem todo o direito de cobrar reconhecimento pelo que fez. O que não pode cobrar é imunidade a perguntas. No Palestra, como em qualquer instituição, elogio não compra silêncio. Uma presidente que construiu sua trajetória defendendo transparência e profissionalismo deveria saber que governança também significa conviver com a inconveniência do contraditório.
Convívio entre as diferenças é fundamental para o Palestra
Por isso, o episódio dos anos 60 tem algo a ensinar ao Palmeiras de 2026. Naquela ocasião, depois de horas de confronto político, situação e oposição conseguiram terminar juntas, sentadas à mesma mesa. Não porque haviam necessariamente mudado de opinião, mas porque encontraram uma maneira de conviver com as diferenças.
Hoje, a questão envolvendo Leila e Lamacchia parece caminhar na direção contrária. Os lados se armam de argumentos, aumentam o tom e transformam uma discussão institucional em disputa pessoal. Isso é ruim para todos, porque uma dúvida que poderia ser esclarecida passa a produzir suspeita justamente pela dificuldade de se conversar sobre ela.
Não é preciso “acabar em pizza”, mas sim, acabar em diálogo construtivo
Talvez faltasse apenas repetir a velha cena, mas com uma finalidade diferente. Sentar os dois lados à mesma mesa, ouvir os argumentos, separar fato de interpretação e permitir que cada um entendesse a posição do outro. Não para “acabar em pizza”, como ocorreu nos anos 60, mas para evitar que uma pizza seja o cenário perfeito para a briga continuar, afinal, em um clube como o Maior Campeão do Brasil, uma desavença política pode quebrar o diálogo e o entendimento de caminhos que possam ser traçados pelo bem de todos, porque a finalidade é e precisa ser a mesma: o avanço da SEP.
No fim, a questão é menos sobre quem ganhou o discurso e mais sobre que tipo de Palmeiras se pretende construir. Leila pode estar certa sobre o que fez pelo clube e, ao mesmo tempo, estar errada na maneira como reage a quem a questiona. Reconhecer uma coisa não exige negar a outra. Talvez fosse essa a conversa que deveria ter acontecido naquela mesa, entre borrifadas de azeite e uma garfada na espetacular iguaria de Nápoles.




