Juros pressionam clubes brasileiros e comprometem investimentos; veja ranking de endividamento
- 04/11/2026
Levantamento mostra o peso das dívidas no futebol nacional, com Corinthians, Atlético-MG e Botafogo entre os clubes mais pressionados financeiramente.
O futebol brasileiro movimenta cifras cada vez maiores, mas o crescimento das receitas não significa, necessariamente, uma situação financeira confortável para os clubes. Um dos principais desafios enfrentados pelas instituições está no custo das dívidas, especialmente em um cenário de juros elevados no país. O impacto vai muito além dos balanços contábeis e pode comprometer diretamente a capacidade de investimento, a contratação de jogadores e o planejamento esportivo das equipes.
Um levantamento realizado pelo UOL em conjunto com o economista Cesar Grafietti ajuda a dimensionar esse problema. De acordo com os dados apresentados pelos balanços financeiros divulgados pelos clubes, os clubes que disputaram a Série A em 2025 acumularam aproximadamente R$ 1,7 bilhão em despesas financeiras ao longo do ano. O valor representa os gastos contabilizados com juros e correções de dívidas, também conhecidos como serviço da dívida.
Na prática, isso significa que uma parcela significativa dos recursos gerados pelos clubes precisa ser direcionada ao pagamento de compromissos financeiros, em vez de ser utilizada em outras áreas. Em uma indústria que depende de investimentos constantes para manter a competitividade, o custo elevado das dívidas pode representar uma barreira importante para o desenvolvimento esportivo e estrutural das instituições.
Como os juros afetam as finanças dos clubes?
A taxa SELIC, definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, é um dos fatores que influenciam o custo do crédito no Brasil. Quando os juros permanecem elevados, operações financeiras vinculadas a essa taxa ficam mais caras, aumentando o peso das dívidas bancárias, dos parcelamentos e de outras obrigações financeiras. Para clubes que já possuem um elevado grau de endividamento, o cenário pode se tornar ainda mais complicado.
Segundo a análise de Cesar Grafietti, os juros elevados atingem especialmente instituições que acumularam dívidas em razão de desequilíbrios financeiros e gastos acima de sua capacidade de geração de receitas. Diferentemente de empresas que utilizam o crédito como ferramenta planejada de expansão, parte dos clubes brasileiros precisa recorrer ao endividamento para sustentar operações que já apresentam dificuldades de equilíbrio entre receitas e despesas.
O levantamento também apresenta uma simulação considerando uma taxa SELIC de 13,75%. Nesse cenário, as despesas financeiras totais dos clubes da elite nacional chegariam a aproximadamente R$ 1,23 bilhão, tomando como referência a média dos números de 2024 e 2025. O cálculo considera as dívidas sobre as quais a taxa de juros exerce influência, incluindo operações bancárias, antecipações de receitas e parcelamentos. Uma eventual redução dos juros poderia aliviar parte dessa pressão, principalmente para as instituições com maior exposição financeira.
O impacto não se limita ao pagamento de empréstimos. Clubes muito endividados também encontram dificuldades para conseguir novos recursos no mercado, já que as instituições financeiras avaliam a capacidade de pagamento e as garantias oferecidas. Em determinadas operações, receitas futuras, como parcelas dos direitos de transmissão, podem ser utilizadas como garantia. Com o crédito mais caro e o acesso limitado a novos financiamentos, investimentos em infraestrutura e no próprio futebol acabam sendo prejudicados.
Corinthians, Atlético-MG e Botafogo entre os mais pressionados
Entre os clubes que mais registraram despesas financeiras em 2025, três instituições chamam a atenção. O Botafogo liderou esse recorte, com aproximadamente R$ 308 milhões, seguido pelo Atlético-MG, com R$ 282 milhões, e pelo Corinthians, com R$ 278 milhões. Os números mostram como o custo das dívidas pode consumir uma parcela expressiva dos recursos disponíveis, especialmente em instituições que já enfrentam dificuldades para equilibrar suas contas.
O Atlético-MG, inclusive, adotou uma medida importante para tentar reduzir essa pressão. No primeiro semestre de 2026, os proprietários da SAF realizaram um aporte de R$ 530 milhões para abater parte significativa das dívidas bancárias de curto prazo. A estratégia buscou diminuir os gastos com juros e liberar recursos que anteriormente eram direcionados ao pagamento de compromissos financeiros. Mesmo com a operação, o clube manteve outras obrigações, incluindo o financiamento relacionado à construção da Arena MRV.
De acordo com o CEO do Atlético-MG, Pedro Daniel, o clube havia desembolsado quase R$ 300 milhões em despesas financeiras no ano anterior, situação que reduziu sua capacidade de investimento. Após a operação, a dívida bancária passou a ficar na casa dos R$ 100 milhões. O dirigente também destacou que o problema não se restringe aos bancos: o elevado endividamento histórico dificulta a manutenção de uma operação equilibrada e compromete o planejamento de longo prazo.
Outro caminho encontrado por instituições em situações financeiras delicadas é a recuperação judicial, mecanismo que permite reorganizar compromissos e buscar condições para o pagamento das dívidas. O Botafogo é um dos exemplos de clubes que enfrentam esse tipo de processo. A dificuldade de acesso ao crédito e o custo elevado dos juros tornam ainda mais importante a busca por soluções estruturais, evitando que novos compromissos financeiros ampliem o problema.
Flamengo e Palmeiras apresentam cenário diferente
Na outra ponta, Flamengo e Palmeiras aparecem em uma situação mais confortável quando o assunto são as despesas financeiras relacionadas ao endividamento. Os dois clubes mantêm esse tipo de compromisso sob controle em comparação com as instituições que lideram o levantamento. O Flamengo, por exemplo, chegou a zerar sua dívida bancária em 2023, após quitar um empréstimo de R$ 23 milhões junto ao BRB. Embora continue registrando despesas financeiras, os valores são considerados pequenos diante do volume de receitas movimentado pela instituição.
O Palmeiras também apresenta um cenário semelhante, com despesas financeiras proporcionalmente reduzidas. A capacidade de gerar receitas e manter o endividamento controlado permite que os clubes tenham maior previsibilidade orçamentária e direcionem mais recursos para suas atividades esportivas. Isso não significa que a situação financeira explique isoladamente os resultados dentro de campo, mas demonstra como uma estrutura econômica mais equilibrada pode oferecer melhores condições para o planejamento e a competitividade.
O levantamento também permite observar a posição dos 20 clubes que integram o ranking, considerando a média entre os saldos registrados em 31 de dezembro de 2024 e 31 de dezembro de 2025 das dívidas onerosas, como empréstimos bancários e antecipações de receitas, além dos parcelamentos. Confira a classificação completa:
Ranking das despesas financeiras por clube:
1º – Corinthians2º – Atlético-MG3º – Botafogo4º – Cruzeiro5º – São Paulo6º – Fluminense7º – Vasco8º – Internacional9º – Santos10º – Grêmio11º – Flamengo12º – Vitória13º – Palmeiras14º – Ceará15º – Fortaleza16º – Sport17º – Bahia18º – Juventude19º – RB Bragantino20º – Mirassol
IMPORTANTE: a classificação utiliza a média entre os saldos de 31/12/2024 e 31/12/2025 das dívidas onerosas (bancos e antecipações) e dos parcelamentos. O Mirassol não possuía dívidas desse tipo nos dois balanços.




